08 abril 2016

Bossa nova


Era necessário estar ali, era necessário ter a casa limpa, as roupas lavadas, o tapete aspirado, era necessário ligar para os filhos, perguntar dos netos, era necessário os dois estarem sentados nas poltronas. Silêncio. Velhos com o tempo que correu. Porque correu? Por um instante ela podia jurar que seus filhos ainda estavam correndo pela casa, que as roupas estavam no varal, que o marido estava chegando do trabalho e tinha um bolo no forno. E ele lembrava com velhas fotos 3x4  na carteira, da mãe, do irmão, e da tia.
Os rostos enrugados, o coração já gasto de um amar antigo. Baixinha uma música ressoava pelo cômodo, uma velha bossa nova, dos tempos de brilho nos olhos, batom vermelho e paletó bem passado. Uma bossa nova, dos velhos tempos. Eles se olharam, naquele minuto perigoso, em que a lembrança vira gente e abraça o nosso corpo. Em um ímpeto, os dois sabiam o que significava validade, idade, tempo, mas não queriam saber, pois a canção era a mesma. Diferente estavam eles.
Ela se levantou, e no mesmo instante ele já sabia... Mãos na cintura, mãos no pescoço, um passo ao lado, outro para trás, dois jovens amantes dançavam na sala de estar, a menina dos olhos de um verde de esperança, o menino de sorriso tímido. Os passos eram curtos, e naquele momento, a vida era longa.
Envelhecer é a prova de que o tempo é real, porque tudo acontece tão rápido, parece que a juventude é eterna e que a ideia de que o tempo passa é um mito, que aqueles ponteiros do relógio não marcam nada, que os anos mudando só mudam em um correr inútil. Mas o tempo é real. E eles são a prova de que o tempo passou. Só não passou com a bossa nova, que trazia tudo e não levava nada. A batida os conduzia, como somos conduzidos às estações. E só quem sobrevive fortemente a todas as estações pode ser o que eles são. Não mais imunes ao tempo, mas o próprio tempo.
E as memórias de formaturas, casamentos, almoços e viagens, estavam em uma mala cheia de fotos em cima do armário de madeira. Também estava na mente deles, mas enquanto dançavam a bossa nova, ainda caía ali as pétalas brancas de casamento, ainda dava para sentir o cheiro do macarrão dos almoços de domingo, ainda estavam em algum lugar longe à passeio. Tudo estava vivo. Os corpos se seguravam na tentativa de um pertencimento que insiste em viver depois de tantas chuvas. Eles dançavam devagar, porque a vida por si só já dançou muito rápido. Já era noite, mas na sala de estar amanhecia.
A velha bossa nova chegou ao fim, mas dali era possível ver o céu, lá fora refletia para dentro uma constelação de memórias.







4 comentários:

  1. Muito bom seu texto hein
    Uma boa perspectiva sobre o passar do tempo, e realmente eu acho que ele passa muito rápido as vezes tenho medo de não conseguir fazer tudo que quero na vida.
    ótima reflexão
    neversaynever-believe.blogspot.com.br

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    1. Eu tbm tenho esse medo, e acho que boa parte das pessoas têm...
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário <3 fico feliz que tenha gostado!

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  2. "Eles dançavam devagar, porque a vida por si só já dançou muito rápido." Que frase maravilhosa e que texto mais lindo, amei! Realmente o tempo corre rápido demais e a gente nem se dá conta :/
    Um beijão,
    Gabi do likegabs.blogspot.com ♡

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    1. Oi, Gabi! Fico imensamente feliz que você tenha amado o teto! <3 Muito obrigada pela sua visita e pelo comentário, volte sempre!!
      Bjs!!

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