28 novembro 2015

Ensino público e a vida escolar


Durante meu ensino fundamental I estudei em um colégio muito bom na cidade onde eu morava na época, depois quando mudei de cidade fiz o restante do fundamental II e o ensino médio em uma escola pública. Lembro como se fosse ontem da diferença enorme que eu senti na mudança de um sistema de ensino privado para o público. Hoje, com uma visão mais crítica, essa mudança reflete em muitos outros sentidos.

Minha experiencia na escola é um contraste entre as coisas boas e as coisas que na verdade só me atrasaram. Entre quatro professores que são realmente bons, e que eu tenho orgulho de ter aprendido com eles, tem um espaço vazio enorme de aulas que nunca tive, das matérias que nunca aprendi, professores que nunca deram aula, porque sentar na cadeira e pedir para preencher uma apostila (muito ruim, por sinal) não é dar aula. Um espaço vazio no que diz respeito as inúmeras aulas vagas e aulas de projeto desinteressantes. Esse espaço em branco não é só meu, mas de milhões de alunos de escolas pública que quando dão dois passos para frente, para fora da escola, se deparam com um mundo de possibilidades que nunca foi dito a eles, e com um abismo enorme em relação a outras pessoas. Eu tive que andar por mim mesma, correr atrás sozinha para aprender, e reconheço que a escola pública me deu algo maior: autonomia.

 O que me revolta não é só o fato de eu ver defasagem no ensino, mas é ver a falta de perspectiva que a escola pública passa aos alunos. É difícil você entrar em uma escola do governo e encontrar aqueles que estão ali batalhando para entrar em uma USP, Unesp, Unicamp ou federal da vida, e não é culpa deles! É porque quase não é dito que é direito nosso estar ali ocupando uma cadeira de uma boa universidade, que vale muito a pena estudar para isso e que a escola é só o começo. O aluno de escola pública, merece muito estar em uma universidade pública, contudo, visto que não existe meritocracia no nosso país, nós que tentamos estamos nadando contra a maré, indo contra um sistema que diz não. E isso não é uma reclamação, é uma reivindicação por nós que não somos ouvidos. É um basta.

Eu lembro quando uma professora de sociologia que eu tive no segundo ano do ensino médio achou que eu tinha plagiado um texto da internet, porque ele estava muito bem redigido, isso é uma pura demonstração do que é hoje a escola. Há subestimação, ausência de esperança e medo. Nós temos medo. A escola nos torna medrosos. E uma recente experiência que tive em sala de aula quando debati com um professor que afirmou que desigualdade de gênero não existe e vi que uma sala de 40 alunos não questionaram isso, só reafirmou que nós somos treinados para ser alienados, para concordar, para ter medo de ir totalmente contra a opinião do professor, ou seja lá de quem for, quando na verdade o espaço da escola deve ser feito para a dúvida também, para nos tornar críticos, para nos tornar ousados o suficiente seja para aqueles que querem tentar uma universidade, seja para aqueles que querem realizar um outro sonho que parece ser grande demais, mas que a escola nos torne ousados o suficiente para sairmos dela querendo aprender mais.








20 comentários:

  1. Nossa, que professor louco é esse, que se diz machista em uma sala de aula? Será que ele não percebe o peso disso, ainda mais em uma sala de aula?
    Enfim, cada uma...
    Estudei a vida toda em rede pública, e para nós a corrida é maior, pode acreditar. Mas não é impossivel!
    Bom post, até.

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    1. Oi Jefferson, pois é dizer isso em sala de aula é de fato errado e irresponsável.
      Obrigada pelo comentario!

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  2. Que o ensino público é precário e deixa a desejar, todos sabemos. É muito bom que você seja crítica ao ponto de argumentar em um texto as consequências da defasagem do ensino na vida dos alunos e seria melhor ainda se isso não fosse apenas um texto do seu blog. Se você enxerga quais pontos precisam ser melhorados, por que não expor isso aos seus colegas? Se você tem a chance de aprender em outros meios, por que não ajudar aqueles que não possuem esse privilégio? Projetos desinteressantes? Por que não sugerir novas ideias à sua escola? Pelo menos tentar... Quando queremos mudança, não adianta só criticar, vendar os olhos e escrever apenas um texto na internet. Você possui outras alternativas e aqueles que não possuem e continuam vendados? É necessário que a mudança também venha de nós... Seja um exemplo de que é possível mudar, porque de reclamação, convenhamos, o mundo já está cheio.

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    1. Olá, como você é anônimo creio que não me conhece... Pois bem, visto isso, é válido eu explicar para você que talvez você não saiba mas eu faço parte de uma geração de jovens que diferente do que você diz sobre só criticar, faz de fato a diferença. Se você acompanha o blog, já deve ter visto que sou ativistas em muitos coletivos. E diferente do que você disse, esse não é SÓ um texto do meu blog, eu já exponho tudo o que disse nesse post aos meus colegas, mas a ideia de fazer um post sobre esse assunto é justamente que pessoas que eu não conheço enxerguem estas questões que eu pontuei aqui. Afinal, a internet foi feita para isso, e a melhor forma de conseguir mais gente lutando contra o ensino que temos hoje, mas gente tendo informacoes é também através da internet. Através de blogs, como o meu. O proprio post é um ato, é uma tentativa, visto que não estou fazendo essa crítica em frente ao espelho, estou divulgando em um espaço aberto para diversas pessoas poderem partilhar. E mais uma vez, você não me conhece, logo não pode concluir que não compartilho do meus outros meios de aprender com meus colegas, a oportunidade que tenho de estudar em cursos é algo muito batalhado por aqueles que fazem isso ser possível, e ajudo de diversas maneiras, e também sou muito ajudada, e o próprio fato de eu querer me tornar professora faz parte da minha vontade de mudar. Mas a ideia não é dizer para você no que eu ajudo, porque isso eu já sei, e aqueles que estão ao meu redor também, a ideia é que você entenda que todo post não é uma crítica por si só, porque quem escreve, escreve para alguém. Isso já é uma diferença, e julgar os atos que você não sabe que existe por detrás de um post, é muito pretensioso, não?
      Enfim, obrigada pelo comentário, é sempre válido.

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  3. Por boa parte da minha vida, eu estudei em escola particular, porém, no ensino fundamental II, eu passei para uma escola conveniada. Não posso realmente reclamar do ensino, é verdade que tenho ferramentas que vejo que tantas pessoas não possuem, e é verdade que mesmo que particular e conveniado não sejam sistemas muito diferente, há uma mudança visível na qualidade (ou existência) de professores e na estrutura da escola, por exemplo.
    Penso, porém, que professores ruins e bons existam em todos os lugares, assim como penso que se um aluno se esforçar, ele poderá ir longe independentemente de sua escola.
    Mas é uma dura verdade que as oportunidades - e mesmo os incentivos para crescer na vida - estão muito mais presentes na vida daqueles que tiveram a oportunidade de estudar em uma escola particular.


    Ana Carolina | http://eujovemdemais.blogspot.com.br/

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    1. Exatamente, Ana!! Obrigada pela visita e pelo comentário ;)

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  4. Nossa, você falou tudo!
    Isso que você relatou do texto "plagiado" também aconteceu comigo. Eu fiquei muito triste porque eu tinha dedicado um tempo razoável escrevendo o texto e ele ficou tão bom que eu não recebi nota porque a professora achou que tinha sido copiado. Dá vontade de chorar até hoje quando eu lembro!
    A escola ao invés de nos encorajar nos faz aceitar as coisas caladinhos.
    Infelizmente o ensino público é isso aqui no Brasil. Lamentável demais!
    Beijos
    http://infinitafeminice.blogspot.com.br/

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    1. É, Natalia, lembro até hoje quando ela me entregou o trabalho valendo metade da nota, e quando eu expliquei que não tinha plagiado ela se retificou dizendo que nunca tinha recebido textos tão bons...
      É lamentável mesmo, mas tenho esperança que nós jovens de hoje estamos caminhando para mudanças.
      Bjs, obrigada pela visita!

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  5. Oi! Adorei o seu texto. Eu estudei a vida inteira em escola publica e da para contar nos dedos quantos professores bons eu tive. Só fui aprender de verdade quando fiz o pré-vestibular e fui entender de verdade o que era ir na escola para estudar e o que era frequentar a escola. Mas também não acho que devo ser hipocrita e dizer que a culpa é toda minha por ter sido um fracasso na escola, sendo que tinha alguns alunos que se dedicaram em todos os anos mesmo com um sistema pobre e acabaram indo para boas universidades. Acho que muitas vezes é mais fácil colocar a culpa 100% no sistema publico do que admitir que também não se importa em estar ali, em se dedicar a aprender. Beijos
    SIL ~ Estilhaçando Livros

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    1. Corrigindo: *dizer que a culpa é toda do ensino público por ter sido...

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    2. Mas será que aqueles ali que não estão se importando, realmente vê outras alternativas? Vejo por alguns colegas, que mal conseguiam acordar cedo para ir a escola porque trabalhava o dia todo... De fato, Sil, temos hoje uma boa parcela de nós estudantes de escola pública que está nas boas universidades, e precisamos de cada vez mais!!!
      Obrigada pelo comentário, e pela visita <3 volte sempre!

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  6. Olá, Carol. Tudo bem?
    Adorei a crítica, que por sinal me fez retornar ao ensino médio de cabeça. Sempre estudei em colégios particulares, e quando tive a ideia de estudar em um colégio público senti na pele a diferença. A experiência não foi de todo ruim, mas assim como você mesma disse, existiam e existem professores e alunos que não levam a educação a sério, e isso também ocorre em colégios particulares. Porém, tudo ganha uma proporção bem mais intensa, ao menos foi o que presenciei ao passar duas semanas estudando no ensino público.

    Eu realmente espero que esse quadro melhore, que os professores sejam mais valorizados pelos alunos, mas para isso tanto o professor como o aluno devem ser primeiramente valorizados pelo estado.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada por deixar seu comentário! Volte sempre, Renato!

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  7. Esqueci de colocar o link do meu blog: http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  8. Estava até comentando isso com um garoto essa semana mesmo no WhatsApp e chegamos a uma conclusão que realmente é a certa: quem faz a escola são os alunos. Estudei quase a minha vida toda em escola pública, quando fui pro ensino médio é que fui para as particulares da vida, senti uma enorme diferença, porque na escola pública o pessoal estudava pra passar mesmo, aprender (isso na época que eu estudei, não sei agora), já na escola particular os alunos nem estudavam direito, a maioria ainda confrontava o professor com o argumento de que "não sei por quê to estudando ainda, já sei que vou herdar a empresa do meu pai mesmo" tipo??? Enfim, gostei do post!

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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    1. Enquanto eu estava na escola pensava muito tbm sobre isso de que quem faz a escola é o aluno,eu ficava tipo porque todo mundo é tão desinteressado? Mas dps fui percebendo que não é bem por aí... E afirmar que quem faz a escola é o aluno é livrar uma série de questões que devem ser pautadas e jogar nas costas do estudante o fato da escola ser ruim...
      Enfim, obrigada por deixar sua opinião, volte sempre <3

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  9. Oi Carol,tudo bem?
    eu a vida inteira estudei em escola publica é muito triste como a educação é vista nesse país.No ensino médio fui estudar na etec que é uma escola técnica estadual, era público mas o estudo era muito melhor do que as outras,muitos colegas meus hoje estão em usp,unicamp,ufscar...enfim e eu fico muito feliz por eles.
    Bjx
    vinteanoos.blogspot.com
    facebook.com/vinteanoos
    canal: https://www.youtube.com/channel/UCfyKBScjv4FlgenoRP_pUpA
    xx
    to seguindo seu blog.

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    1. É muito triste mesmo, hoje as etecs são boas opções tbm, lá na USP onde estou agora vejo que muitos alunos vieram de ETEC's!
      Bjs, volte sempre.

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  10. Enfim, disse tudo! Eu estudei 8 anos em escola pública, mas ao ensino médio tive a oportunidade de fazer uma prova e entrar como bolsista integral em um colégio de particular de elite e, vou te dizer uma coisa: como é que tem gente que ainda não é a favor de cotas? Eu cheguei no ensino médio e não sabia nem mesmo frações, que é uma matéria simples e obrigatória da quarta série. Foi 1 ano perdido tentando correr atrás dos 8 anos que vivi em uma escola pública, mas mesmo assim fui aprovada na Unesp recentemente, para você ver que um ensino de qualidade faz toda a diferença. É triste a gente chegar numa escola com fome de estudar e não ter uma biblioteca sequer, daí muita gente perde a vontade de estudar, não tem jeito.

    Ótimo texto!!!
    Beijos!

    madessy.blogspot.com

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    1. Muito obrigada pelo seu comentário! De fato, também tive esse choque ao se deparar com "já devia ter aprendido isso". Tbm não entendo como ser contra as cotas, visto que elas acabam sendo uma alternativa imediata contra a desigualdade na educação, até que tenhamos uma alternativa a longo prazo, que é definitivamente uma educação pública de qualidade. Parabéns pela sua aprovação na UNESP <3 <3
      Bjs e volte sempre!

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