21 fevereiro 2015

Inércia da nossa poesia


Não quero ser fotografada pelo céu escuro da noite, quero as exatidões das manhãs. Do organismo vivo das coisas que começam, não daquelas que terminam. Apesar da minha redenção, não quero a tristeza das madrugadas infinitas que mostram no seu transcorrer o que liga e separa um dia do outro. Apesar de me render, não quero o som melancólico do violino às quatro na escuridão, quero o despertar da gaita sob a manhã que se estende em um céu claro, o sol batendo nos telhados, a anunciação.
Esteve chovendo muito lá fora, para mim, isso foi como o desespero. As nuvens vomitaram toda angústia e aqui dentro está frio nas paredes azuis, parece que tem algo que me faz ficar nessa sala escura com essa luz persistente atravessando a cortina. Aquela música me fez lembrar da cor do seus olhos pelo restante do dia, ela se repetiu, mas o dia chega ao seu fim. O seu "não vai embora" não foi suficiente, mas nós somos loucos para aprender a voltar em um dia mais claro, sem meu temporal molhando toda a janela do seu quarto. 
E todos os nossos pedidos na noite foram silenciados pela fraqueza da distância, e ainda continuam em aberto, mas eu já não estou mais por perto, e você vai acordar e só seguir em frente com seu velhos cigarros e velhos lugares perdidos pela cidade que para nós pode ser grande demais ao ponto de sermos estranhos, ou pequena e fazer com que trombemos por ai. 
Vivemos esses dias metódicos tentando achar poesia nessas rachaduras e nessas ruas cinzas, nessa bagunça sobre a mesa, tentando lembrar do que deu certo depois de todas as apostas, antes que esse espetáculo não tenha mais luzes para ser visto, antes que ataquemos um aos outros nesse circo sem lonas. 
E para substituir essa ânsia eu tentei ver o que restou de tudo isso nas palavras. Estou tentando chegar a meras conclusões, pobre de nós que nos rendemos às bitucas, fazendo arte e tentando entender, que bela inércia da nossa poesia somos corpos parados afastados um do outro, e parados permaneceremos. E depois de tudo isso, você bebe para esquecer, e eu escrevo.





8 comentários:

  1. Ah, que texto lindo!
    De uma leveza incrível, viajei por entre cada palavra. Amei, mesmo.
    http://www.escrituras-da-alma.blogspot.com.br/?m=1

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  2. Adorei o texto!
    O melhor trecho certamente foi o que me identifiquei "E depois de tudo isso, você bebe para esquecer, e eu escrevo."

    bjs
    blogtrashrock.blogspot.com

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    1. Obrigada por mostrar a parte que se identificou ♡ bjs!

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  3. Ótimo texto, bem poético e me deixou com vontade de ler mais.
    Beijos. ♥
    Infinita Feminice

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  4. Gostei muito da pegada do texto, simples porém envolvente.
    De alguns pensamentos eu me identifiquei muito. Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Fico muito contente de saber que foi envolvido pelo texto!
      Obrigada, até.

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