30 outubro 2017

Sem chuva, sem flores

                                            Imagem de quotes, flowers, and rain
Nunca achei que fosse ser o tipo de pessoa que chora por relacionamentos, na verdade eu nunca me vi em um, e me surpreende esse tempo todo que tento dividir um pouco da minha vida com outra pessoa. Acontece que eu já deveria saber como tudo acaba, é como se eu pudesse escutar a minha própria voz de alguns anos atrás dizendo "eu te avisei". É como se a pessoa que eu era - sem me prender a ninguém, que não queria me envolver - estivesse me dizendo que errei em todas as lições, que fiz tudo ao contrário. Mas também é como se aquela garota mais nova me consolasse e dissesse que ainda existe a pessoa certa.
Mesmo eu tendo certeza a todo instante que era ele, e ainda no momento, tenho.
Pra que serve o amor afinal? Pra gente aprender um milhão de coisas, sentir coisas que nem imaginávamos sentir, compartilhar momentos, nossa história, segredos e intimidade, pra no final chorar e jurar não amar mais ninguém? Pra sentir que sempre vai ser esse ciclo?
Eu sei que vai ser insuportável talvez não tê-lo mais na minha vida, mas não posso deixar de me sentir muito grata por ter tido alguém tão especial. 
A verdade é que eu sinto tudo em dobro, e já sei que estou sofrendo muito mais que ele mesmo sem ter resolvido tudo. Ter me tornado uma pessoa extremamente sensível me destrói nesses momentos, em contrapartida eu não me arrependo de demonstrar o quanto sinto. 
O que me dói é saber o quanto poderia dar certo se eu não tivesse perdido tanto minha identidade nessa história, se eu já tivesse começado bem comigo mesma, se eu não me perdesse de quem eu era há alguns anos. Me machuca saber que eu ainda tinha tantos planos, ideias, surpresas e sonhos pra dividir. Me machuca muito saber que deixei todos os meus problemas afetarem as coisas desse jeito, me machuca saber que tive que enfrentar todos meus anseios sozinha e calada pra não estragar nada, porque eu não queria compartilhar minhas fraquezas, mas que no final das contas eu falhei mesmo assim e falhei várias vezes. 
Sei que eu só escrevo assim quando estou muito mal, e que toda minha dor sempre vira arte. Mas já estive muito mal outras vezes e no meio de dias nublados eu sempre acho um recomeço e volto a enxergar o sol. Talvez a vida queira me ensinar uma lição, talvez ela esteja me testando e no final até deve existir alguém que te aceite como você é, mesmo isso indo contra as coisas que tô acreditando no momento. Talvez eu me surpreenda e dê tudo certo no final, minha cabeça está cheia de "talvez", mas a única certeza é que eu sei o quanto eu amei uma pessoa por tanto tempo e o quanto agradecia todas as noites por tê-la, mesmo não dizendo, mesmo depois de alguma briga.
Porque eu sou assim, generosa demais, sensível demais, clichê, com traumas e problemas emocionais, mas como diz meu terapeuta; eu tenho um coração enorme que poucas pessoas tem e devo me orgulhar disso, porque no final das contas eu sempre acabo florescendo de novo e de novo.
       

14 julho 2017

Voltei!


O tempo é mesmo muito maluco. Foi relendo as coisas aqui do blog que eu percebi ainda mais isso. Todo espaço de tempo é efêmero, absurdamente efêmero. Quando leio os meus textos de dois, três anos atrás, tenho três sensações, a primeira: reescrever e arrumar todos os erros de gramática. Acredito que essa vontade muito se relaciona a minha fase de vida enquanto universitária e também com meu trabalho nessa área de correção/redação. A segunda sensação que eu tenho é como eu cresci, como amadureci e tive oportunidade de viver e aprender tantas coisas que antes eram apenas sonhos. A terceira sensação é de que como só a escrita mesmo é capaz de nos levar ao universo mágico de reviver por alguns instantes as sensações, os desejos já passados. Nem a fotografia consegue despertar em mim o que a escrita desperta no sentido de trazer de volta o que já foi.

Reler me faz também pensar em como tudo passa, pessoas que antes importavam agora é só aquele texto antigo, coisas que antes eram presentes agora não são mais. E há as coisas novas que aparecem o tempo todo, realizações, novos sonhos, novos cenários... pessoas que chegam e mudam sua vida no melhor sentido possível. E você mesmo que vai encontrando aos poucos a sua verdadeira maneira de querer levar a vida. No espaço entre um texto de 2014 e um de 2017 há tanto! Há palavras que saltam, explodem, morrem, nascem, brilham para serem escritas, para ganhar vida. Momentos que quando abrigados nesse universo das palavras se eternizam puramente como são.

Vejo que o tempo que fiquei sem escrever só me mostra como crescer nos faz escolher tantas coisas e deixar tantas outras para trás. Isso não é totalmente bom, mas é necessário. As vezes algumas coisas não são gravadas nesse universo eterno da escrita, no entanto, o mais incrível é saber que a qualquer momento elas poderão ser. Voltar me mostra que mesmo com o tempo corrido, essa sempre foi e será minha arma de luta, de sonho, de desejo e refúgio. 









05 junho 2016

Viagem: Paraty- RJ

Já adicionei uma nova cidade queridinha na minha lista: Paraty! Passei o feriado prolongado de Corpus Christi com amigos, acampando nessa cidade linda, foram quatro dias inesquecíveis! E além de conhecer esse lugar mágico, já risquei um item da minha lista de coisas que precisava fazer: acampar!


19 maio 2016

Precisamos falar sobre relacionamentos abusivos

jessica-jones.jpg
A adaptação dos quadrinhos da Marvel, a série Jessica Jones tem como protagonista uma mulher que foi alvo de um relacionamento abusivo


Ela tinha 15 anos e então um cara mais velho se interessou por ela, parecia a coisa mais incrível, e até pode ser, não se deve generalizar dizendo que se envolver com caras mais velhos sempre seja ruim e que relacionamentos abusivos só acontecem com caras mais velhos, mas esse fato em si se repete com muitas garotas. E foi assim, ele tinha 25, dava aula, era inteligente, estava na faculdade e apresentava um mundo novo a ela, além disso gostava das mesmas coisas. Fazia ela se sentir"diferente das outras garotas" porque ela tinha sido a escolhida e pela primeira vez alguém muito interessante estava afim dela, e não só os caras do ensino médio. Mas a verdade é que ele era só mais um cara abusivo, dentre tantos que tem por aí. E como ela reconheceu que aquilo que ela estava vivendo era abusivo:
Ela se sentia errada a todo o momento. Se ele não mandasse mensagem, ela errou em alguma coisa, se ele não a tratava bem, ela errou de alguma forma, se ele ficava com outras garotas, a errada foi ela, se ele desmarcasse o encontro porque deu uma festa a noite passada e estava de ressaca, ela que errou. Ela era a louca, ela que deveria ser melhor o tempo todo em prol dele. Ela estava psicologicamente acabada com apenas quinze anos.
Ela deveria ser gentil com ele mesmo se ele fosse um babaca com ela, porque se ele estava sendo babaca a culpa foi dela em algum momento. Deu pra perceber? Você começa a assumir uma postura de culpa constantemente, como se você precisasse sempre ser perfeita pra ele. É um clico.
Se o cara te trata mal, te deixa constrangida na frente dos outros, faz com que você em algum momento se sinta incapaz de tomar suas próprias decisões, assume uma postura possessiva, usa drogas como desculpa pra abusar de você, te obriga a fazer coisas no relacionamento contra sua vontade, age como se precisasse “ensinar uma lição” sempre que está descontente com o relacionamento, faz você se sentir louca pra te culpar pelos erros dele: você está vivendo um relacionamento abusivo.
Mesmo se não tiver violência física!
Se não existir não quer dizer que o que a pessoa está passando não seja algo abusivo. A ideia de “mas ele não me bate” omite todo sofrimento psicológico e se transforma em um motivo pra pessoa não reconhecer que esta vivendo isso.
E o primeiro passo é sempre reconhecer, a questão é que muitas mulheres estão presas a esse relacionamento de uma forma que não conseguem se imaginar sem ele, porque a ideia de que não vai ser capaz de ser feliz sozinha, de encontrar outra pessoa melhor é sempre o pensamento que surge depois de uma sensação pós briga, por exemplo.
E não! Não deve ser assim.
Existem milhares de mulheres de todas as idades convivendo com isso. Que acha impossível recomeçar, que tem a ideia de que ama o cara demais e é melhor viver assim do que viver sem ele, que não fala sobre isso com ninguém, até porque ele é outro cara quando está com os amigos e a família. E assim se silencia esse caso.
E é com esse silêncio que a mulher perde. 




12 maio 2016

E agora?


Desde pequena sou engajada ao ativismo, seja fazendo campanhas ecológicas - quando eu tinha só oito anos - seja tomando voz em uma sala de aula para discordar de um professor machista, defendendo as coisas que eu acredito mesmo diante de uma autoridade, escrevendo sobre feminismo, política e sobre meus ideais. Mas nunca me senti, diante das conjunturas políticas atuais, em uma rua sem saída. Hoje, assistindo nos noticiários uma presidente ser afastada de seu cargo, quando eleita democraticamente, e acompanhando uma ocupação um tanto duvidosa na minha universidade, senti que minha voz estava esvaindo e que no meio dessa confusão toda eu só pudesse ouvir aqueles que sempre puderam falar. 
Fui aluna de escola pública quase que minha vida toda, eu tenho propriedade quando afirmo que falta merenda sim nas escolas estaduais, porque faltava na minha. E embora eu reconheça que nunca precisei da merenda para me alimentar, eu sei porque já vi com meus próprios olhos alunos que dependiam daquele prato de arroz e feijão para se sustentar praticamente o dia todo. 
Os secundaristas hoje das escolas públicas estão dando um show de política e atuação, eles têm propriedade no que estão fazendo e no porquê de estarem lutando. Mas o que vejo sobreposto a isso, na universidade pública e em outros lugares é que muita gente tenta roubar a luta, ou se apropriar da voz de quem não tem uma vida de privilégios.
Tem uma galera aí que veste a camisa de defensor do pobres, porém nunca precisou trabalhar, não fala bom dia para o porteiro e para as faxineiras da sua universidade, entretanto quer aderir a luta dos trabalhadores com muita garra. O problema em si, não é o cara de classe média alta querer sair da bolha e lutar pelos direitos do pobre, o problema é que esse cara de classe média alta luta na frente dos pobres por algo que ele nunca vivenciou, roubando a cena, calando as vozes mais baixas e se sentindo no direito de ser uma figura representativa. Não há consciência de classe. Eles acham que saíram da bolha, mas na verdade só entraram em outra, com nome de hipocrisia.
São tempos difíceis, de caos, tempos em que vestir a camiseta verde e amarela representa apenas um lado e não um todo, quando a camiseta do Brasil deveria vestir todos os brasileiros. São tempos difíceis de  tentar se situar, tempos de indecisão, em que escolher um lado é assumir tanta coisa junto. Tempos de luta, sobretudo, para não transformamos o presente em passado.
E o que eu desejo é que a liberdade não seja só um sinônimo de utopia, é triste pensar no nosso país se desmanchando em vários sentidos, principalmente naqueles chamados democracia e justiça. Hoje, agora, me sinto representada por muito pouco, mas me sinto no direito de não deixar a luta ganha, porque eu faço parte da maioria que dificilmente é vencedora, os trabalhadores, estudantes de escola pública, moradores da periferia, os que lutam por um país melhor.  
E nós jovens que conseguimos tantas coisas com nossa considerada bagunça, nos vemos em um jogo que já parece vencido por ratos sujos que não moram no porão, mas sim no planalto. A semana parece estar sendo marcada por acontecimentos históricos.
 Em tempos assim, me resta escrever, me resta lutar, pois também são tempos de temer.









06 maio 2016

Crônica: Como fazer amizade em São Paulo


Existem algumas formas infalíveis de fazer amizade em São Paulo, pelo menos aquelas amizades de cinco minutos, ou de dez quem sabe. Algumas coisas unem as pessoas de uma forma muito engraçada, e essas coisas são: caixa que não funciona mais, fila, trânsito e o clima. Definitivamente desde que São Paulo virou parte da minha rotina, tenho feito amizade com pelo menos duas senhoras por dia, ou mais, porque todas nós somos movidas por um elemento muito paulistano, a tal da pressa.
- Nossa,  como assim, um caixa só, e essa fila toda?
- Não é menina, como pode né? Eles acham que temos o dia todo... Só pode.
- Pois é, minha filha, e eu to indo é pra longe...
- E eu também, pra onde você está indo?
E assim basicamente começa uma conversa de cinco, oito minutos, até as pessoas serem separadas pelas catracas do metrô, ou pelos destinos diferentes do busão. O fato é que uma coisa todo mundo nesse mundo sabe fazer muito bem: reclamar. Não importa se a mulher a minha frente tem quarenta anos, e se a menina de trás tem quatorze, se estamos apressadas, esperando um ônibus chegar, ou algo voltar a funcionar, somos unidas pela impaciência, pela vontade de que as coisas normalizem. 
Viver em São Paulo é praticar constantemente o exercício da paciência, ou tentar aprende-lo. Se você quer chegar às sete, tem que sair de casa às cinco, se quer muito pegar aquele ônibus, de qualquer forma vai chegar atrasado no ponto e esperar meia hora o outro passar, se tiver sorte não vai ter nenhum acidente nas rodoviais, se tiver mais sorte ainda, não vai esquecer o guarda chuva em um dia que começou com sol e terminou nublado. Mas isso é de lei, você vai esquecer. Você vai pegar chuva.
Mas não é de todo ruim, com esse sentimento coletivo de insatisfação e pressa, você aprende que não está sozinho, porque não importa se a tia que pegou o metrô comigo na semana passada e começou a papear sobre a bipolaridade do clima, é de esquerda ou de direita, eu não sei o que ela faz aos finais de semana, eu não sei se ela é casada ou divorciada, mas no meio de nossa conversa de dez minutos até ela descer na Fradique Coutinho, a mulher me contou rapidamente sobre seu sonho de morar no interior, e disse que eu lembrava a irmã dela. A indignação com a bipolaridade do clima paulistano nos aproximou por dez minutos e essa pessoa não foi só mais uma de todo o caos do dia.
É possível encontrar sorriso em meio a bagunça paulistana, é possível encontrar alguém que te entenda quando você entra em uma fila de vinte minutos e fica revoltada, e a pessoa vai dizer:
- Vou chegar atrasada. - E você vai responder:
- Eu também.











17 abril 2016

Como um velho amigo


Desde que eu te vi de novo meu coração parece pequeno e frágil agora. Eu me sinto tão pequena e indefesa, como se qualquer coisa pudesse me machucar. Qualquer coisa ligada a você. E eu prometi não escrever mais sobre isso, porque dói, e eu me sinto pagando caro por algo que eu não comprei, levando todos os socos de uma briga que eu nem quis entrar.
Eu sei que vai passar, mas é difícil convencer minha mente quando meu coração só tem batido forte por você, de novo e de novo por aí, como um velho amigo que a gente encontra pela rua e diz sobre a vida.
Acho que te ver muda o sentido de tudo, porque depois de alguns meses jurando pra mim mesma que eu ia me recuperar fácil, eu sinto que tudo foi dito em vão, mesmo eu estando cansada de pedir conselhos sobre isso e mesmo as pessoas estando cansadas de ouvir falar sobre a gente.
Você tá se tornando o cara que eu sempre achei que não fosse ser. Parece mais seus amigos do que você mesmo, mas eu ainda sinto seu olhar antigo em mim enquanto eu desvio pra não dar na cara que meu coração ainda é seu. Sempre foi.
Noite passada eu fiquei com alguém, tentando te esquecer, mas nem o álcool e nem qualquer outro beijo faz você sumir da minha mente, porque ainda parecemos tão próximos, mesmo sentindo que você tenta virar a página todos os dias. E você está melhor nisso do que eu.
Passamos de pessoas com uma história em comum pra pessoas com conversas casuais quando se encontram por ai pela cidade na correria do dia.
Quem diria, me tornei a garota que eu menos queria ser. Passei de durona pra ser alguém que chora domingo a noite por problemas que parecem tão pequenos, por ter feito uma bagunça na vida de um cara e uma bagunça na minha vida também.
E é o que todo mundo já diz, deu o que tinha que dar, e talvez essa seja a parte que a gente toca nossa vida pra frente. E eu devo fazer o que manda o script, focar na minha carreira, pensar em mim e ser feliz.



08 abril 2016

Bossa nova


Era necessário estar ali, era necessário ter a casa limpa, as roupas lavadas, o tapete aspirado, era necessário ligar para os filhos, perguntar dos netos, era necessário os dois estarem sentados nas poltronas. Silêncio. Velhos com o tempo que correu. Porque correu? Por um instante ela podia jurar que seus filhos ainda estavam correndo pela casa, que as roupas estavam no varal, que o marido estava chegando do trabalho e tinha um bolo no forno. E ele lembrava com velhas fotos 3x4  na carteira, da mãe, do irmão, e da tia.
Os rostos enrugados, o coração já gasto de um amar antigo. Baixinha uma música ressoava pelo cômodo, uma velha bossa nova, dos tempos de brilho nos olhos, batom vermelho e paletó bem passado. Uma bossa nova, dos velhos tempos. Eles se olharam, naquele minuto perigoso, em que a lembrança vira gente e abraça o nosso corpo. Em um ímpeto, os dois sabiam o que significava validade, idade, tempo, mas não queriam saber, pois a canção era a mesma. Diferente estavam eles.
Ela se levantou, e no mesmo instante ele já sabia... Mãos na cintura, mãos no pescoço, um passo ao lado, outro para trás, dois jovens amantes dançavam na sala de estar, a menina dos olhos de um verde de esperança, o menino de sorriso tímido. Os passos eram curtos, e naquele momento, a vida era longa.
Envelhecer é a prova de que o tempo é real, porque tudo acontece tão rápido, parece que a juventude é eterna e que a ideia de que o tempo passa é um mito, que aqueles ponteiros do relógio não marcam nada, que os anos mudando só mudam em um correr inútil. Mas o tempo é real. E eles são a prova de que o tempo passou. Só não passou com a bossa nova, que trazia tudo e não levava nada. A batida os conduzia, como somos conduzidos às estações. E só quem sobrevive fortemente a todas as estações pode ser o que eles são. Não mais imunes ao tempo, mas o próprio tempo.
E as memórias de formaturas, casamentos, almoços e viagens, estavam em uma mala cheia de fotos em cima do armário de madeira. Também estava na mente deles, mas enquanto dançavam a bossa nova, ainda caía ali as pétalas brancas de casamento, ainda dava para sentir o cheiro do macarrão dos almoços de domingo, ainda estavam em algum lugar longe à passeio. Tudo estava vivo. Os corpos se seguravam na tentativa de um pertencimento que insiste em viver depois de tantas chuvas. Eles dançavam devagar, porque a vida por si só já dançou muito rápido. Já era noite, mas na sala de estar amanhecia.
A velha bossa nova chegou ao fim, mas dali era possível ver o céu, lá fora refletia para dentro uma constelação de memórias.







29 março 2016

Só mais um texto sobre você



Eu queria escrever alguma coisa bem bonita pra gente. Mas eu nem sei se você merece o tempo que eu tenho passado pensando em você. Você se tornou aquela história que meus amigos não querem mais escutar, você se tornou aquela conversa que se chama saudade, você se tornou  os conselhos que minha irmã nem quer mais dar, porque eu não segui nenhum: esquecer você, não ter recaídas, colocar um fim.
É difícil escrever sobre uma coisa que foi real, eu sempre fui melhor pra escrever sobre amores inventados. Mas ai tem você. E apareceu tanta gente na minha vida já, mas toda vez era o mesmo final: lá estava eu em pedaços. Quando você ficou -um velho amigo- foi como se eu finalmente encontrasse uma parte de mim, mas não. Aqui estou eu novamente como cacos de vidro espalhados pelo chão.
E a culpa nem foi nossa.
Sei lá o que aconteceu, mas já faz quatro meses e toda vez que é quinta eu sei que sexta eu não te vejo mais. Todos os dias têm sido intermináveis quintas. E já faz um mês desde a nossa última recaída, e dessa vez eu sinto que estamos tentando colocar de verdade um fim. Apesar dos amigos em comum, e das lembranças que ficam em vários lugares, apesar daquela noite que a gente jurava ser pra sempre, apesar de todos os nossos beijos e toda essa coisa que a gente constrói quando gosta de alguém. Aqui estamos nós, cada um no seu canto tentando começar uma vida diferente cheia de responsabilidades, trabalho de faculdade, rotina e pessoas novas.
Eu juro que sempre que eu entro naquele bar eu olho pra mesa que nos sentamos, eu sinto saudade. Talvez um dia eu passe por lá e me esqueça de lembrar nós dois.
E é tão estranho porque é como se tudo tivesse acontecendo pra nos separar, mesmo com nossas inúmeras tentativas de tentar nos ver pra conversar, pra devolver algumas coisa, pra dar seu presente que ficou aqui, a vida dá um giro como quem diz que já desperdiçamos nosso tempo.
Não sei se você  já me superou, se você excluiu as músicas que te fazem lembrar de mim, se você ainda pensa naquelas cenas que eu estou revirando os olhos por causa de alguma idiotice que você falou, ou da química que tínhamos quanto estávamos juntos. Mas eu sei que você está tentando esquecer tudo. Talvez em festas, por ai, ou ocupando a mente com alguma coisa, qualquer lugar  que era ocupado por mim.
Eu não tenho mais notícias suas, e eu já cansei de tentar fazer dar certo, de sentir esse aperto no peito toda vez que eu penso que foi por tão pouco. Das nossas conversas em que fingimos que está tudo bem, que nunca tivemos nada. Soa tudo tão falso. Eu me cansei de parecer a errada da história. Eu cansei dessas músicas de amor, de passar tanto tempo com seu nome na cabeça. E eu sei que você também se cansou.
Porque tudo que eu tenho agora é só mais um texto sobre você.

06 março 2016

Até onde vai dar


Eu queria esquecer você de vez. Não me segure com força agora, estou tentando te esquecer, fica tudo mais difícil com você em volta, com você na porta me olhando voltar com seus olhos tipo faróis de um carro veloz, na noite gelada. Como eu vou te esquecer desse jeito? Eu ainda não tirei todas as minhas conclusões do que você sente para nos dar o diagnóstico de tudo que aconteceu, então diga-me o que sente, eu vou tentar te escrever, só me diga porque tudo isso ainda não terminou.
Você parece sozinho agora com seus vícios e discos de vinil, você parece confuso agora com todas as minhas possíveis chances de te trazer de novo pra minha vida e depois todas as despedidas repentinas que duram uma semana. Eu não consigo imaginar algo para nós dois que não seja essa emergência, essa ventania, eu não consigo imaginar mais nada para nós dois que não seja ver você indo e depois voltando, e eu não conseguindo ficar.
Todas as vezes que você pergunta porque não fazemos durar, eu desvio o olhar, desvio o assunto, você devia ter notado que é tudo devastador, devorador, o que nos desvenda. E quando os nossos olhares se encontram do nada eu sinto como se fossemos parte de uma história muito mais louca do que achamos fazer parte. Então você me conta da sua vida, bebe metade da garrafa, xinga algumas pessoas no meio de todo o seu desabafo, a gente fingi que está tudo bem porque estamos loucos demais para perceber que tudo isso irá se despedaçar depois.
Eu só queria que não fosse difícil deixar de te procurar a cada momento em que a bagunça que eu faço me bagunça também, quando os problemas parecem tomar todos os cantos, eu não queria precisar de você para me abraçar no meio desse barulho, mas você me norteou e eu só não sei usar essa bússola para encontrar o ponto em que fazemos as coisas permanecerem sãs.
Ainda fico em dúvida sobre essa sua esperança sem fim no amor, talvez aí é que nos distanciamos, eu não consigo ficar bem se não estivermos jogando limpo, vou acreditando aos poucos nas suas frases feitas, aos poucos eu me deixo por completo ser seu abraço, mas por um momento tudo isso me assusta, saímos de cena, as luzes se apagam, eu me protejo da sua imensidão, porque me afogar é tão fácil, quando você volta todas as vezes que a maré está cheia.
E eu continuo sem entender, você diz que essa é a graça das coisas, enquanto estamos nos esperando, resolvendo nossas vidas, o tempo vai indo, a gente vem vindo, se vendo, até ver onde vai dar.












04 março 2016

5 representatividades femininas no cinema


É notável que não há um número legal de mulheres em cargos decisivos no cinema, a indústria cinematográfica continua estereotipando o papel das mulheres nos filmes e séries. Mas listei quatro filmes e uma série que mostram personagens mulheres fortes e totalmente o contrário daquele papo de sexo frágil.

1- Rey

A Rey protagoniza o filme Star Wars: O Despertar da Força, ao lado de um negro, Finn e um latino, Poe. O filme tem uma representatividade feminina muito forte, quem assistiu deve ter visto que em nenhum momento a Rey precisou de alguma ajuda masculina, diferente de muitos filmes desse gênero que no enredo as mulheres sempre são colocadas em perigo e precisam ser salvas pelo herói. Em nenhum momento o filme caminhou para esse clichê.

2- Jessica Jones

A história em quadrinho de Jessica Jones estreou como série em novembro de 2015 e mostra não só a representatividade de uma mulher forte - mesmo com seus defeitos e fraquezas- como uma super heroína, mas também aborda assuntos como relacionamentos abusivos, o estupro, o aborto e a força das mulheres.

3- Claireece


Precious conta a história de uma jovem negra e gorda que é constantemente abusada pelo pai e violentada pela mãe, a jovem precisa se esforçar para levar a vida adiante. Após muita luta, Preciosa começa uma jornada que a levará ao mundo de luz, amor e auto-determinação. O filme foi baseado no livro "Push" da autora Sapphire que também é negra!

4-  Furiosa



Apesar do nome "Mad Max", o filme não tem Max como ator principal. Na verdade, Furiosa que protagoniza toda a história. Mad Max - Estrada da Fúria mostra excelentes momentos de liderança da mulher e emponderamento feminino.

5- Malévola



Malévola conta a história sobre o ponto de vista de uma vilã, o filme também prioriza o universo de soberanias femininas. O roteiro foi escrito pela Linda Wolvertoon e Linda e Angelina deram várias entrevistas e falaram da preocupação que tiveram com as pautas feministas.





27 fevereiro 2016

Nossos vazios não pertencem a ninguém


Tem corações pulsando no meio dessa agitação
Eu acordo, e quero ser mar, mas no meio dessa multidão sou só eu
No meio de nós, formigas, no meio de nós pequenas formigas.
Ninguém reparou no cara de muletas
O cara de muletas reparou nos azulejos desenhados do metrô, que ninguém reparou.
Ninguém repara nos reparos
A veia nas vias, ninguém viu
Somos corpos indiferentes, nossos vazios não pertencem a ninguém.
Porque somos toda essa solidão metropolitana, toda essa fumaça urbana
Nossos vazios não pertencem a ninguém.
Estou embebedada por esse caos, e em um minuto me perco
Encontro depois o céu rosado, o infinito é maior que a solidão.
Está inacabado, estas palavras soam inacabadas
Esse sentimento é inacabado
Procuro suas mãos na urgência que antecede tudo, mas depois viro de lado
Porque nossos vazios não pertencem a ninguém.
Eu não quero fingir, porque meus versos se esgotaram
As gotas de chuva que caí em nosso corpo, nos encharca
Nunca fomos tão secos.
E se a noite grita, essas manhãs silenciosas nos aproxima do abismo
Ficamos de baixo da chuva, ficamos no meio termo
E se estamos tristes e felizes, estamos vivos
Sem ar, quero mar
Abismos

Silêncio. 




22 fevereiro 2016

VESTIBULAR: 5 Dicas de quem passou na USP


Uma das melhores coisas na vida é ser aprovado na universidade do seus sonhos, no curso dos seus sonhos! Eu fui aprovada na Universidade de São Paulo, depois de um ano inteirinho dedicado aos estudos. E para conseguir essa aprovação contei com a ajuda de muitas pessoas, por isso nada mais que justo do que compartilhar com quem esta na fase dos vestibulares um pouco das dicas que eu fui obtendo enquanto vestibulanda.

Informação

Eu estudei em escola pública e sou bem sincera quando digo que nunca tive muitas informações sobre vestibulares na escola, na verdade só entendi o que realmente era o vestibular quando entrei no cursinho. Contudo, pode parecer que não, mas se informar é algo valioso! Muitas pessoas não entendem o perfil do exame que vai prestar, por exemplo o perfil do ENEM é um, o do vestibular da FUVEST é outro, a Unicamp e da Unesp também têm seus próprios modelos. As informações sobre os vestibulares não são inclusivas, já conheci gente que só fez o ENEM, porque nem sabia da existência de outras provas. Por isso é legal buscar o máximo de informações que você conseguir sobre todos os vestibulares.


Organização 

Eu considero essa dica a mais importante de todas! É extremamente necessário que você seja organizado se deseja ter sua esperada aprovação. Compre uma agenda! Algo que eu sempre tive o costume de fazer e que me ajudou muito para o vestibular, era escrever na agenda tudo o que eu precisava fazer no dia. Por exemplo: - Estudar história aula 1 / - Resolver exercícios de matemática / - Fazer um simulado. E desta forma, você vai riscando conforme vai cumprindo, escreva também as matérias atrasadas e aquilo que você tem que por em dia, essa é uma maneira de controlar a ansiedade e controlar os estudos.

Faça um cronograma

Montar um cronograma de estudos é primordial, organize todos os seus horários e tudo o que você vai fazer no dia, se você ainda está na escola e vai prestar o vestibular, ou se você só faz cursinho, se você faz escola mais cursinho, que foi o meu caso, se você estuda sozinho ou se você trabalha e estuda, monte um cronograma com o horário que você acorda, que estuda tal matéria, o horário que você come, descansa, faz simulado. Claro que nenhum cronograma é inalterável, você pode ir mudando conforme vai ficando melhor pra você, mas o ideal é que você tenha essas metas para cumprir no seu dia e uma disciplina, isso foi essencial para mim!

Faça simulados

Você precisa conhecer seu "inimigo" se quer enfrentá-lo, certo? Por isso eu digo faça muuuuitos simulados para se preparar. Mais uma dica é que você foque especialmente nos simulados do vestibular da faculdade que você mais quer. Imprima as provas dos últimos quatro anos ou mais e vai fazendo, depois veja sua pontuação, procure ajuda nas questões que você errou. Desta maneira você consegue entender o perfil do vestibular que vai prestar, visto que cada um acaba abordando sempre aquele conteúdo específico. Assim você vê também como seus estudos estão rendendo, e no que precisa melhorar. Quando eu fiz a FUVEST tinha treinado com tantas provas antes que o nervosismo na hora da prova decisiva nem foi tão grande, e eu já tinha "sacado" a pegada desse vestibular e o que eles exigiam.

Foco no que você quer

O lado emocional também conta muito nessa fase, é normal se sentir com medo, inseguro, eu vivia ansiosa, achando que nada do que eu estudava era suficiente, e isso é realmente muito normal. Mas você precisa também ter confiança em você, principalmente antes de fazer as provas. Eu sempre ouvia de várias pessoas "mais é muito difícil, né?", ou quando você conhece aquela pessoa que está prestando para o mesmo curso que você pela segunda vez e aí bate aquele medo, não dê ouvidos, não se preocupe! Acredite e confie no que você está trilhando e se sinta preparado, sentir aquela insegurança é até saudável, eu conheci muita gente segura demais que não passou. Vai acontecer um monte de coisa para tornar tudo mais difícil e muita gente vai duvidar, ou te assustar, mas foco e concentração no que você quer, que você chega lá, sim! Pense positivo. E atenção para a qualidade do seus estudos!



Qualquer dúvida sobre vestibular você pode mandar nos comentários ou por e-mail, bons estudos!






17 fevereiro 2016

5 coisas que eu aprendi com fins de relacionamentos



1- O tipo de cara que não quero mais me envolver
Agora um pouco mais velha eu percebo, mas na época eu tinha 15 anos, então já dá pra imaginar o que acontece quando uma garota de 15 anos se apaixona. E pior, ele era beeem mais velho, alguém com 15 anos -por mais madura que eu sempre pareci e fui - não tem idade o suficiente pra entender que um relacionamento com um cara quase dez anos mais velho não vai dar certo. Mas uma coisa eu aprendi: homem que aproveita do seu "cargo" - ele dava aula em cursinho- pra ficar com alunas não é o tipo de cara que deve se apaixonar.

2- Dá pra estragar uma playlist inteira, mas dá pra conhecer músicas novas
A verdade é que se você for o tipo de pessoa que associa música com quase tudo na vida, muita música pode ser excluída porque trazem lembranças que querem ser esquecidas. Olhando pelo lado bom, dá pra conhecer bastante música nova pra ocupar o lugar. Outra coisa bacana é que depois de um tempo, quando já está tudo bem, acontece de ouvir a música e suportar sem sentir-se triste ou coisa do tipo.

3- Como se valorizar cada vez mais
Quando um relacionamento termina -depois de toda fase ruim- você começa a entender que merece encontrar alguém que de fato te mereça.

4- Não vale a pena carregar toda culpa
Se um relacionamento não deu certo, muitos motivos estão envolvidos, mas não dá pra levar toda culpa de um término. No meu caso sempre esteve ligado à insegurança.
Muita gente te faz acreditar que você é a culpada, até que você mesmo começa a se culpar - geralmente nas insônias- mas uma única pessoa não é responsável por algo que não deu certo. Culpar-se o tempo todo e ficar procurando o erro só da dor de cabeça, a melhor coisa é livrar-se de pesos desnecessários que carregamos.

5- "Se não virar amor, vira poema"
Talvez uma parte boa dos términos pra mim é que sempre me rendem bons textos. Acho que uma boa forma de superar é transformar dor em alguma forma de arte.




16 dezembro 2015

Transitoriedade


Agora, neste instante, são tantas coisas que eu queria deixar registradas em palavras, mas é tão difícil conseguir dizer tudo. Parece que no final do ano, desde que eu tinha sei lá quantos anos de idade e era metida a escrever, eu tenho a necessidade de contar para o papel sobre meu ano, sobre as coisas que ficaram... Mas nesse fim de ano eu tenho uma versão tão cansada de mim que mal consegue fazer nada sem dar umas dez bocejadas, pelo menos.

Tem o fato de a escola ter acabado, eu poderia escrever sobre isso, porque não é tão simples assim pegar férias eternas do ensino médio, e esse sentimento que fica agora entre alivio e medo. Percebi que estou cheia de medos, mas também transbordando de gratidão, decidindo pensar no universo como todos os versos que eu uni, como todos os poemas que tenho gravado e que minha alma recita nesses dias que parecem tão sozinhos... Nessas despedidas.

E são tantas coisas que vão ficando para trás, pessoas, sentimentos, ruas que não passamos mais, eu queria ter o controle de não sentir saudades, queria ter o controle de não ver tudo indo. E não terei. Agora pouco eu descobri uma lista de músicas que quase não ouvi esse ano, simplesmente porque elas lembravam muito o ano passado, agora pouco eu percebi que ano que vem vai ter uma lista de músicas que vai lembrar o agora, e ano que vem é daqui poucos dias.

Por ora, vou ficar com o sabor de tudo isso, com as decisões, com o som de qualquer nota saudosa do violão e o que será de mim daqui para frente é o espaço em branco que diz muito entre uma estrofe e outra de qualquer poema por aí. Vou deixar ir de pressa mesmo, e eu fico aqui, com tudo isso em minhas mãos trêmulas, tentando pensar no que faço com o tempo, no que faço comigo.





28 novembro 2015

Ensino público e a vida escolar


Durante meu ensino fundamental I estudei em um colégio muito bom na cidade onde eu morava na época, depois quando mudei de cidade fiz o restante do fundamental II e o ensino médio em uma escola pública. Lembro como se fosse ontem da diferença enorme que eu senti na mudança de um sistema de ensino privado para o público. Hoje, com uma visão mais crítica, essa mudança reflete em muitos outros sentidos.

Minha experiência na escola é um contraste entre as coisas boas e as coisas que na verdade só me atrasaram. Entre cinco professores que são realmente bons, e que eu tenho orgulho de ter aprendido com eles, tem um espaço vazio enorme de aulas que nunca tive, das matérias que nunca aprendi, professores que nunca deram aula, porque sentar na cadeira e pedir para preencher uma apostila (muito ruim, por sinal) não é dar aula. Um espaço vazio no que diz respeito as inúmeras aulas vagas e aulas de projeto desinteressantes. Esse espaço em branco não é só meu, mas de milhões de alunos de escolas pública que quando dão dois passos para frente, para fora da escola e se deparam com um mundo de possibilidades que nunca foi dito a eles, e com um abismo enorme em relação às outras pessoas. Eu tive que andar por mim mesma muitas vezes, correr atrás sozinha para aprender, e reconheço que a escola pública me deu algo maior: autonomia.

 O que me revolta não é só o fato de eu ver defasagem no ensino, mas é ver a falta de perspectiva que a escola pública passa aos alunos. É difícil você entrar em uma escola do governo e encontrar aqueles que estão ali batalhando para entrar em uma USP, Unesp, Unicamp ou federal da vida, e não é culpa deles! É porque quase não é dito que é direito nosso estar ali ocupando uma cadeira de uma boa universidade, que vale muito a pena estudar para isso e que a escola é só o começo. O aluno de escola pública, merece muito estar em uma universidade pública, contudo, visto que não existe meritocracia no nosso país, nós que tentamos estamos nadando contra a maré, indo contra um sistema que diz não. E isso não é uma reclamação, é uma reivindicação por nós que não somos ouvidos. É um basta.

Eu lembro quando uma professora de sociologia que eu tive no segundo ano do ensino médio achou que eu tinha plagiado um texto da internet, porque ele estava muito bem redigido, isso é uma pura demonstração do que é hoje a escola. Há subestimação, ausência de esperança e medo. Nós temos medo. A escola nos torna medrosos. E uma recente experiência que tive em sala de aula quando debati com um professor que afirmou que desigualdade de gênero não existe e vi que uma sala de 40 alunos não questionaram isso, só reafirmou que nós somos treinados para ser alienados, para concordar, para ter medo de ir totalmente contra a opinião do professor, ou seja lá de quem for, quando na verdade o espaço da escola deve ser feito para a dúvida também, para nos tornar críticos, para nos tornar ousados o suficiente seja para aqueles que querem tentar uma universidade, seja para aqueles que querem realizar um outro sonho que parece ser grande demais, mas que a escola nos torne ousados o suficiente para sairmos dela querendo aprender mais.








07 novembro 2015

Fim de ano


Tem algumas coisas que agora se resolveriam se eu dormisse. Eu apaguei na cama da minha avó, um sono culpado de quem na verdade, deveria estar respondendo questões de química, sonhos estranhos e estava frio. 

Todos esses dias eu lembrei o interior, final de ano foi feito para a infância, porque agora é melancólico. Quando eu era criança as ruas do centro da cidade ficavam enfeitadas com luzes e guirlandas, começavam a enfeitar nesse mês, e eu amava porque para mim era como um presente de aniversário também. Agora, meu aniversário vai cair na semana do vestibular, e ver que nas lojas já estão vendendo árvores de natal me traz um pouco de desespero de mais um ano que escorreu depressa.

Eu não quero impressionar com nenhuma palavra bonita, não dessa vez, não nesse texto. Estou vomitando tudo mesmo. E depois, quando o ano estiver realmente no fim, eu sei que vou dormir por um dia inteiro, vou assistir todos os filmes que me indicaram e ler os livros que com essas semanas velozes eu não consigo ler. Eu sei que é possível achar bonita a vista que tenho agora, tem beleza daqui também, tem tanta coisa junto, mas eu não posso conter minha vontade de fugir para o litoral, me esconder nas ondas... ficando pequena naquela imensidão e mesmo assim estar me sentindo plenamente bem.

Tem tantas folhas que já foram viradas da agenda, voltei a usar a primeira pessoa, porque me esconder nas palavras não adiantava em nada. Há tantas gotas na janela agora, o céu está cinza, mas a vida é longa. Tem tantos esconderijos nosso na cidade, tem tempero no nosso coração, lembrei-me de quando eu era pequena, morava no interior, fazia sol todos os dias. Eu nunca vou perder isso.







01 novembro 2015

Sobre feminismo e movimentos sociais


Tem algumas coisas que eu tenho notado nesses três anos de militância no feminismo, uma delas  é que feminismo é confundido muitas vezes com um partido, ou uma preferência partidária. Feminismo vira uma bandeira ideológica, como se fosse um outro tipo de machismo e como se tivesse realmente um partido político por detrás disso. Feminismo é um ato político, tudo é um ato político, lutar por direitos é um ato político. Mas repito, feminismo não é um partido. E vê-lo assim é que faz as pessoas pensarem nele como o inverso do machismo. Feminismo é um conceito. 

Pensar no feminismo como um outro tipo de opressão é inverter o real sentido do movimento, é confundir a luta, é mudar seu foco. Parece que temos um sério problema no que a nomeação desse movimento carrega quando dito. Um problema de semântica. O sentindo que deve ter quando alguma mulher diz "eu sou feminista" é que essa mulher participa de um movimento de luta. Isso. Luta por igualdade, protagonismos e questões urgentes que necessitam que as mulheres se organizem em um movimento (o feminismo) para que eles aconteçam. 

Se o sentido não for esse, então temos um outro grande problema no que os movimentos sociais estão se tornando. Quando eu digo a alguém que sou feminista, não quero que nenhuma bandeira partidária me represente, não quero que nenhum rótulo se forme. Outra coisa também que deve ser refletida sobre todos os movimentos sociais é a mudança de foco da luta, a substituição por ódio e a perda do real motivo do porquê lutar por tal causa.

Esses dias estava em um grupo no Facebook que foi feito para compartilhar receitas veganas, e entre um comentário ali e aqui percebi que tinha mais gente reclamando das pessoas que postaram foto da bolacha que não é considerada vegana, do que de fato dividindo a experiência de aderir a essa forma de vida. Assim que o foco da luta vai se desviando, tratar mal as pessoas, e ter ódio não é o motivo de lutar por um modo alimentar e de vida que visa não matar os animais, não degradar a natureza. Do que adianta ter tanta vontade de mudar de um lado, e regredir em outros pontos? 

E o ódio parece presente no discurso de ativistas de muitos desses movimentos, e há ausência do principal: cooperação. Ajudar de verdade, levantar e agir de fato. Acredito nos grupos que não se pautam apenas na teoria ou na criação de um rótulo, vou dizer pelo feminismo, pois é o que mais faz parte da minha vida, mas isso serve para outros. Acredito no feminismo que torna mulheres cada vez mais, principalmente as das classes sociais mais baixas, protagonistas, a terem perspectiva de vida, enxergarem mudanças, acredito nas mulheres de coletivos que vão atrás de questões sérias que podem ser resolvidas, que estão ali usando a sua voz e ajudando outras a terem voz também, que não se limitam só em publicar coisinhas nas redes sociais sobre o quanto as mulheres são oprimidas, mas que na hora da verdade, faça algo para mudar. Se não for assim, então toda luta é em vão.







15 agosto 2015

Texto: Vazio



O homem sentado no banco, cheio de dúvida, cheio de mágoa, cheio de esperança, cheio de lembranças e cheio de saudade.
 A moça na fila cheia de amor, cheia de certezas, cheia de vontade e cheia de saudade. 
O outro, no trabalho cheio de desespero, cheio de melancolia, cheio de arrependimento, cheio de adeuses e cheio de saudade.
 E o velho no ônibus cheio de amores, cheio de dores, cheio de dias, cheio de memórias, cheio de solidão e cheio de saudade.

A cidade, cheia com a multidão, cheia de abandono, cheia de sentimentos, cheia de palavras, cheia de vãos, cheia de cores, cheia de paz, cheia de guerra, cheia de tréguas, cheia de paixões, cheia de encontros, cheia de despedidas, cheia de vida, cheia de morte e cheia de saudade.

O mundo vai indo... Cheio, às vezes de vazios. 
E de saudade.





02 agosto 2015

Texto: Espírito de viagem


Pela janela do restaurante eu fico observando as pessoas. É incrível sair do seu mundinho do dia a dia e enfrentar um lugar diferente. Depois que você faz sua viagem sem os pais pela primeira vez, o gosto da liberdade se mistura com aquele frio na barriga e traz uma sensação memorável. É como se você começasse a realmente se sentir mais velho, e algumas coisas vão ficando lá atrás.
Enquanto eu e meus amigos esperávamos o almoço chegar, ali estava eu sentada perto da janela vendo o movimento de pessoas. Não era o fluxo de pessoas que eu costumava ver da janela do ônibus na minha rotina. Não eram pessoas apressadas, andando rápido pelos semáforos, não eram vidas apressadas, e mentes ocupadas.
Estavam todos de viagem e por isso mesmo que esqueceram essas pessoas frenéticas que são, e por um instante só se dão o prazer de viver. E não deveria ser assim sempre?
Vivemos um dia depois do outro, só seguindo o dia, monotonamente, só seguindo o fluxo, só atravessando rapidamente, só correndo pra não chegar atrasado, só torcendo para o final de semana chegar, o final do ano, alguma coisa. Mas nunca estamos esperando o agora. A gente sempre se esquece. Dos votos do começo do ano, das nossas próprias promessas, das nossas vontades, dos nossos sonhos mais ocultos. A gente se dá o trabalho de não dar trabalho a nós mesmos, e ser só alguém.
A vida deveria ser como essa viagem. Nós deveríamos ser como somos nessas viagens.
Eu sei que a vida não é só alegria, mas a gente se esforça tanto pra ser feliz, e será que a felicidade é todo esse esforço? A felicidade é o caminho pra viagem, é a viagem, é depois, é tudo de bom e renovador que fica. A felicidade é tão simples, mas a gente complica tanto.
Deixamos escapar alguma coisa durante os dias, esquecemos algumas coisas de propósito, nos sabotamos e nos perdemos por aí.
Eu só queria ser essa pessoa da viagem sempre. Eu queria sentir que as coisas boas sempre ocupam um espaço maior que os problemas, eu queria que essa esperança que nasce em um lugar diferente morasse comigo. Mas há alguma coisa nesses dias cheios que nos esvazia.
No entanto, lá estava eu pensando em tanta coisa e tentando não sumir com essa esperança dentro de mim. E aqui estou eu, escrevendo pra não perder, e lendo pra não esquecer. Que a felicidade tem sempre que ocupar um espaço maior que os problemas, que nós temos que ter a esperança que temos quando estamos viajando e carregar conosco esse espírito de viagem.




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